Mas Deus o ressuscitou no terceiro dia

Reflexão para o Domingo de Páscoa | 16 ABR 2022 – Ano “C” 
| MACAPÁ (AP) | Por Dom Pedro José Conti

Lemos no livro dos Atos dos Apóstolos que quando Paulo se arriscou a falar da “ressurreição” de Jesus aos filósofos, reunidos no areópago de Atenas, foi zombado. Pergunto-me se, hoje, o anúncio da ressurreição de Jesus teria melhor êxito. Por educação, talvez, não haveria gargalhadas. O mais provável seria a indiferença, um levantar de ombros, um “acredite se quiser”, sussurrado para não ferir ninguém. Sinceramente. o que me espanta é isso: a ressurreição de Jesus parece um assunto do passado, patrimônio de uma religião que interessa cada vez menos. Com certeza, nos dias da Semana Santa, na Vigília Pascal e no Domingo de Páscoa as nossas igrejas são bem frequentadas. Afinal, é Páscoa. Entre coelhinhos, ovos de chocolate e outras guloseimas, um pouco de tempo deve sobrar também para o Senhor. Acabaremos falando e celebrando a ressurreição de Jesus com quantos, provavelmente, já acreditam, participam e, de alguma forma, não têm receio de se dizerem cristãos. Ou seja, a Páscoa do Senhor corre o risco de ficar um assunto particular, reservado aos que ainda acreditam. É o que hoje muitos pensam: cada um decida e escolha o que acreditar, não importa o quê – somos tolerantes – afinal, existe liberdade de culto, de expressão e de crença. Basta não perturbar demais a quietude pública. Estou bem consciente desta situação que, acredito, não seja muito diferente daquela que as primeiras comunidades de cristãos encontraram. O mundo era pagão. Tinha muitos deuses, muitos ídolos, muita magia e muitos aproveitadores também. Espalhar crenças sempre deu lucro. Os apóstolos, porém, não receberam aplausos; alguns deles logo, ou muito cedo, pagaram com a própria vida a coragem do seu testemunho.

Cheguei aonde queria chegar: o testemunho. Não tenho a pretensão de convencer alguém, mas gostaria que alguns, ao menos, começassem a duvidar da possibilidade do valor sério e honesto do testemunho dos Apóstolos. Na primeira leitura do livro dos Atos, deste domingo de Páscoa, esta palavra se repete ao menos quatro vezes. Pedro diz que é testemunha da Ressurreição de Jesus e que ele mesmo os mandou “pregar ao povo e testemunhar que Deus o constituiu Juiz dos vivos e dos mortos” (At 10,42). Pedro, como os demais, não tinha “provas” da ressurreição, somente tinha o seu próprio “testemunho”.

Com efeito, a Ressurreição de Jesus não pode ter provas, digamos “científicas”, do jeito que nós entendemos hoje, provas feitas com experiências concretas e indiscutíveis. Isto é  porque a Ressurreição de Jesus é algo que, em primeiro lugar, é obra de Deus, portanto acima das nossas possibilidade. Mas, ao mesmo tempo, é extremamente humana, porque o que está em jogo é o sentido último da nossa existência. Por isso, Pedro diz também que “Deus estava com ele”, ou seja, o Pai ressuscitou Jesus porque “sempre” esteve com ele, na vida e na morte. Isto significa que o Pai reconheceu que Jesus viveu conforme a sua vontade que é sempre misericordiosa e bondosa. De fato, Jesus “andou por toda parte fazendo o bem”. A vida de Jesus foi uma vida feliz porque vivida com amor, na doação, no serviço, na misericórdia. Antes de nos ensinar a morrer, Jesus nos ensinou a viver plenamente, a fazer da nossa vida um dom feito de encontros, de perdão, de confiança, de caminhos novos para a paz e a unidade, de respeito à vida, de esperança no impossível que se torna possível pela força transformadora da compaixão.

Chegou a nossa vez de testemunhar a novidade da Páscoa de Jesus. Não ficamos lamentando dificuldades ou obstáculos. Se ninguém zomba de nós por causa da nossa perseverança, é porque estamos desistindo dela; somos cristãos por conveniência, por costume, de ocasião. Se ninguém fica curioso para saber o que aconteceu de tão diferente no dia de Páscoa, é porque nada de novo e luminoso aparece em nossa vida. Vivemos uma fé sem brilho, sem entusiasmo, sem compromisso. Cristãos acomodados que não arriscam nada por causa da própria fé, não podem exigir que os outros acreditem naquilo que nem mexe conosco. Desde o tempo dos Apóstolos, o que vale é o testemunho. A “prova” que Jesus está vivo, ressuscitado e glorioso é a nosso jeito de viver.                               

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