Home » Artigos Dom Pedro » Aprender a gratuidade

Aprender a gratuidade

Reflexão para o Domingo do XXVIII Domingo do Tempo Comum| 10 OUT 2021 – Ano “B”Domingo do Círio de Nazaré em Macapá

1ª Leitura Sb 7,7-11 | Salmo 892ª Leitura: Hb 4,12-13| Evangelho: Mc 10,17-30

| MACAPÁ (AP) | Por Dom Pedro José Conti

Chegamos ao domingo do Círio d Nossa Senhora de Nazaré. De novo, sem podermos nos manifestar como gostaríamos, numerosos e alegres, a nossa devoção a Maria, a humilde serva do Senhor, a “bendita entre as mulheres”, a “bem-aventurada” porque acreditou. Neste ano, colocamos Maria ao lado de São José. Eles, juntos com Jesus, constituem aquela que chamamos de “Sagrada Família”, exemplo para todos nós de oração, trabalho e fé. Qual segredo “a mais” podemos aprender com essa família tão especial?

Talvez nos ajude o evangelho deste domingo. Encontramos uma pessoa que procura Jesus e tem um grande desejo: “ganhar a vida eterna”. Algo maravilhoso se, com essas palavras, entendemos não tanto o conjunto de todos os bens possíveis e imagináveis, mas, nada menos, que o próprio Deus, sumo bem e plena felicidade para todos. Inicialmente, Jesus lembra àquele homem os mandamentos da Lei de Deus, ou seja, um caminho de confiança, obediência e respeito. Para aquela pessoa, porém, isso não tem nenhuma novidade: conhece os mandamentos e os pratica desde a juventude. O que lhe falta? – Só uma coisa – responde Jesus – vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me! (Mc 10,21). O evangelho continua dizendo que aquele homem “foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico”. O comentário de Jesus vem em seguida: “Como é difícil para os ricos entrar no Reino de Deus!” (Mc 10,23). Pelo jeito, os bens materiais, tão cobiçados pela grande maioria dos seres humanos, são um obstáculo muito grande para fazer parte do Reino de Deus. No entanto o próprio Jesus aponta a saída: o que parece impossível para nós, somente com as nossas forças, é possível para Deus. Se nós o pedimos, com fé e confiança, ele mesmo, Deus Pai, nos dá a capacidade de nos livrar das amarras da ganância e do lucro. Quando a luz de Deus toma conta do nosso coração e das nossas decisões, nós começamos a olhar e a entender as coisas da vida e do mundo com o olhar dele, que é de amor e, portanto, somente capaz de doar, doar tudo, doar a si mesmo, sem esperar ou pedir nada em troca. Podemos chamar este amor de gratuidade total. Por nossa vez, a este amor incondicional de Deus, nós podemos responder somente amando generosamente a ele e aos nossos irmãos.

Com Deus não tem negociação, cobranças, reivindicações, prazos… A “vida eterna”, que o homem do evangelho procurava, é um dom gratuito de Deus, é oferecida, doada, nunca será o resultado do nosso esforço ou um direito adquirido pelos nossos merecimentos. Jesus nos ensinou tudo isso; não foi para nos fazer sentir pequenos perante a grandeza sem medidas do amor de Deus, mas para transformar o nosso coração de interesseiro em generoso e compassivo. A sociedade que organizamos funciona com a troca de mercadorias, de serviços e de favores. Estamos tão acostumados com isso, que desconfiamos de quem nos oferece algo sem cobrar nada antes ou depois. Sempre perguntamos quanto custa aquilo que gostaríamos ter ou alcançar.

Também o homem do evangelho deste domingo queria saber o preço da vida eterna, quais obrigações devia cumprir, quais ofertas ou holocaustos devia fazer. Dar de graça aos pobres aquelas riquezas que tinham custado tanto tempo, trabalho, organização e esperteza não entrava na sua cabeça e no seu coração. Vale a pena nos perguntar se aprendemos a gratuidade nas nossas famílias, ou se também nelas já funciona a lógica interesseira do mundo. Filhos, crianças e adultos, que não sabem mais agradecer aos pais por tudo aquilo que fizeram por eles. Esposos e esposas que perderam a alegria de se doar e de se receber cada um como uma dádiva não merecida. Parentes que se odeiam por causa da herança deixada pelos pais e avós. Temos dúvidas que Jesus aprendeu a gratuidade também com Maria a José? Ele, o homem justo e obediente, acolheu Maria em sua casa, acreditando nos seus sonhos e na palavra dela. Ela, a serva do Senhor, ficou feliz de colaborar com o projeto de Deus sem saber tudo o que a aguardava e se teria merecido alguma recompensa. E Jesus? Ele deu tudo, até a própria vida, porque Deus é assim, só amor doação.

Comente

Seu email nao sera publicado. Campos marcados so obrigatorios *

*