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Um pedaço de pão

Reflexão para o XVII Domingo do Tempo Comum| 25 JUL 2021 – Ano “B”

1ª Leitura 2Rs 4,42-44 | Salmo: Sl 144| 2ª Leitura: Ef 4,1-6| Evangelho: Jo 6,1-15

| MACAPÁ (AP) | Por Dom Pedro José Conti

Quando o velho pai morreu, os filhos encontraram algumas preciosidades que ele guardava num armário. Havia um colar de pérolas da mãe, uma plantinha de prata que o médico havia ganhado na universidade, um objeto de marfim da África e, por fim, um pedaço de pão duro e seco. Então chamaram a antiga cozinheira e esta contou o seguinte: “Depois da Segunda Guerra Mundial, havia pouca comida na Alemanha. Estando o médico doente, um velho veio visitá-lo e lhe deu aquele pedaço de pão. Porém o médico recusou-se a comê-lo e o mandou para a vizinha, cuja criança também estava doente. A vizinha agradeceu o pão, mas achou que seria mais justo enviá-lo a um idoso pobre. Este também não ficou com o pão. O mandou para a filha que morava com duas crianças num porão ali por perto. Ela,  porém, com a intenção de ajudar o bom médico, levou o pedaço de pão até ele. Ao chegar novamente em suas mãos, o médico percebeu que se tratava do mesmo pão. Emocionado disse: “Enquanto permanecer vivo entre nós o amor que reparte seu último pão, não temo pelo nosso futuro. Este pão saciou a fome de muitas pessoas, sem que ninguém tivesse comido dele um pedaço sequer. Vamos guardá-lo bem e, quando o desânimo se abater sobre nós, olhemos para ele!”

A partir deste domingo, 17º do tempo Comum, teremos uma pausa na leitura do Evangelho de Marcos. Deixamos Jesus “ensinando” e tendo compaixão da multidão. Em Marcos, também, teríamos aquela que estamos acostumados a chamar de “multiplicação dos pães e dos peixes”. É justamente aqui que a Liturgia Dominical encaixa o capítulo 6 do Evangelho de João que nos acompanhará por alguns domingos. Podemos chamar esta página do evangelho de “milagre do pão”, mas o texto de João prefere usar a palavra “sinal” (Jo 6,14). É um convite para ir além do fato em si e procurar entender o recado.

É fácil perceber que o grande assunto desse capítulo é a Eucaristia. Veremos que existem muitas outras fomes na existência humana e não somente a necessidade do alimento material para sobreviver e trabalhar. Tudo começa, porém, com Jesus que sacia a fome do povo. Os detalhes são importantes. O número de pessoas é muito grande, absolutamente desproporcional com os cinco pães e dois peixes oferecidos por um menino. O lugar é bonito e agradável. Todos são convidados a sentar-se na relva e a comer até ficar saciados. É um verdadeiro banquete sem confusão ou disputas. Os gestos de Jesus são os mesmos dos relatos da Última Ceia. Ele toma os pães em suas mãos, os abençoa e os distribui. Os pedaços que sobraram são recolhidas e enchem doze cestos. É um número simbólico que lembra a alegria e a plenitude das promessas de Deus, como o “sete”, soma dos cinco pães e dois peixes.

 Antes de apresentar a Eucaristia como “alimento”, o evangelista João nos ensina que Jesus se preocupa com a fome do povo, ou seja, com a primeira necessidade de qualquer ser vivo. É a maneira mais simples e evangélica de lembrar a todos os cristãos de todos os tempos que satisfazer as urgências materiais das pessoas, como a fome, por exemplo, talvez seja algo absolutamente prioritário para que possa existir uma humanidade feliz e fraterna. Jesus ensina que Deus Pai não quer que nenhum dos seus filhos sofram a fome e deixem assim de reconhecê-lo como bondoso e providente, louvando-o e agradecendo-o por sua bondade. Até quando seres humanos padecem ou morrem de fome,  devemos nos questionar sobre uma religiosidade separada da vida, um conjunto de ritos, obrigações e rezas que não transformam em “comunhão e partilha” os bens que Deus colocou a serviço de todos. As escandalosas desigualdades sociais, a fome, o desemprego e as migrações de milhões de pessoas devem incomodar as nossas “Eucaristias”. Se nada muda do nosso egoísmo, ao ponto de anestesiar as nossas consciências e, assim, desistirmos de construir uma sociedade mais justa e solidária, corremos o perigo de fazer das nossas Liturgias meras representações e não mais os “memoriais” do amor de Jesus. Até “um pedaço de pão duro e seco” pode lembrar muito amor e fortalecer a esperança. E as nossas Missas?     

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