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Promessas

Reflexão para o Domingo da Santíssima Trindade| 30 MAI 2021 – Ano “B”

1ª Leitura Dt 4,32-34.39-40 | Salmo: 32| 2ª Leitura: Rm 8,14-17| Evangelho: Mt 28,16-20

| MACAPÁ (AP) | Por Dom Pedro José Conti

Certa vez, após uma sangrenta batalha, Alfred, o rei da Inglaterra teve medo e fugiu. Se embrenhou numa floresta desconhecida até que encontrou uma casa humilde e uma mulher aceitou acolhê-lo. Para ela, o rei era simplesmente um soldado inglês cansado e faminto. A mulher lhe disse:

  • Vou sair para buscar um pouco de leite das minhas cabras. Você promete que ficará reparando o pão que estou assando no forno, para que não queime? Alfred prometeu. No entanto, preocupado com as sortes do seu exército e do reino, se esqueceu de ficar olhando o pão. Ficou todo carbonizado e a cozinha cheia de fumaça. Quando a mulher voltou, deu-lhe um forte tapa na cara, reclamando pela desatenção. Alfred disse:
  • Como se atreve a bater no seu rei! Mas a mulher replicou:
  • O senhor tinha-me dado a sua palavra que ficaria olhando no forno. Devia tê-la mantida!
    Conta a lenda que foi neste momento que o rei Alfred se lembrou do juramento feito quando subiu ao trono. Tinha prometido que iria defender o seu povo até ao custo de sua vida. Envergonhou-se de ter abandonado a batalha. Voltou, reorganizou as suas forças e ganhou a guerra.

Lenda é lenda, acredite quem quiser, no entanto, lembra-nos que as promessas que fazemos não podem ser meras palavras jogadas ao vento. De maneira especial quando envolvem a vida de outras pessoas. Pensamos a tantos juramentos profissionais, quando alguém assume um cargo público, as promessas matrimoniais, da vida religiosa e consagrada e nos graus do sacramento da ordem. Antigamente, dizem, que bastava a palavra dada para selar alianças entre reinos e nos contratos comerciais. Talvez precisasse de algumas testemunhas, mas a palavra dada era fundamental. Hoje, assinamos papéis e mais papéis, mas a fidelidade às promessas parece ter ficado nos costumes do passado. Sem falar dos crimes praticados todo dia pela internet com a promessa de lucros extraordinários e com comprovantes que, depois, revelam-se inexistentes. Claro que estou generalizando muito e que tudo isso não vale para todos. Contudo estamos nos acostumando até com as declarações públicas de pessoas famosas que depois são regularmente desmentidas ou reviradas com explicações opostas. A prudência é uma virtude, assim como a sinceridade e a honestidade, mas o medo de sermos enganados cria, infelizmente, um clima de desconfiança e dúvida.

No evangelho de Mateus, deste domingo da Santíssima Trindade, Jesus envia os seus apóstolos a todos os povos, sem discriminação, para que, através do batismo, eles também se tornem seus discípulos. Uma missão sem limites, mas com uma promessa decisiva: “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20). Se não compreendemos bem essas palavras e esquecemos de outras, podemos chegar a duvidar até das promessas de Jesus. Por exemplo, se entendemos que a presença de Jesus seja garantia de sucesso – no sentido mundano da palavra -, de multidões ou de poder, estamos redondamente enganados. É mais provável que a Comunidade dos discípulos tenha que passar por críticas e perseguições. Juntos com os bons frutos aparecem, também, as nossas fraquezas e falhas. O caminho do Evangelho será sempre o caminho da cruz, ou seja, do sofrimento, do sacrifício, da vida doada. Se for por amor, porém, antes ou depois, a bondade vencerá. Outro detalhe que não devemos esquecer: ser discípulos de Jesus não significa ter a exclusividade do bem. Com certeza, outros podem fazer melhor do que nós. A presença de Jesus vivo e ressuscitado não será medida simplesmente pelos resultados de uma ou de outra obra, mas pela capacidade de recomeçar sempre de novo. Porque é assim que acontece. Todos cansamos de sermos “bons”, tem hora que dá vontade de esquecer os pobres e tirar satisfação de quem nos ofendeu. Manter viva a esperança da força invencível do amor, essa é a nossa missão. Jesus não está entre nós para ganharmos sempre e de qualquer jeito. Ele está conosco para que nunca desanimemos e para que lembremos que o Reino é dele, não o nosso. “…E o seu reino não terá fim” (Lc 1,33).

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