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O peixinho vermelho

Reflexão para II Domingo da Quaresma| 28 FEV 2021 – Ano “B”

1ª Leitura Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18 | Salmo: 115| 2ª Leitura: Rm 8,31b-34| Evangelho: Mc 9,2-10

| MACAPÁ (AP) | Por Dom Pedro José Conti

Uma criança de oito anos escreveu: “Meu pai fica sempre porre porque está desempregado. Minha mãe não tem dinheiro, por isso  me colocaram num instituto. A única criatura que me quer bem é um peixinho vermelho que tenho numa vasilha perto de mim, também quando durmo. A diretora me disse que não posso ficar com o peixinho e assim, de noite, durmo com a vasilha do peixinho amarrada na minha mão, porque estou com medo de acordar e não o encontrar mais. Se me tirarem o peixinho, não tenho mais ninguém que me queira bem”.

É muito difícil imaginar as marcas que ficam no coração e na mente de uma criança, quando chega a pensar não ter ninguém que a ame de verdade. Os pais devem amar os seus filhos, mas devem também dizer a eles que os amam. Isso porque o amor se manifesta de muitas formas que, nem sempre, podem ser agradáveis e condescendentes.

Pensei isso refletindo sobre o evangelho da Transfiguração deste Segundo Domingo da Quaresma. A voz do Divino Pai diz que aquele homem Jesus é o Filho “amado” e que devem escutar o que ele fala. Depois disso, tudo volta ao normal e recebem a ordem de não contar a ninguém o que tinham visto. Somente depois da ressurreição de Jesus eles poderão falar porque, naquela hora, nem saberiam mesmo o que contar: não tinham a menor ideia do que queria dizer “ressuscitar dos mortos” (Mc 9,10).

Pouco antes, o evangelho de Marcos coloca o primeiro anúncio da paixão (8,31). Os discípulos podiam não compreender nada da ressurreição, mas sabiam muito bem o que representava a cruz. Era uma das mortes mais atrozes e vergonhosas daquele tempo. Na hora da paixão, os discípulos “abandonando-o, todos fugiram” (Mc 14,50). Mas o Pai? Como era possível que o Divino Pai dissesse que amava o Filho e, depois, o deixasse morrer na cruz? Onde estava o Pai na hora da paixão? Aquele era ou não era o Filho amado? Que amor de pai é esse? Parecem perguntas desrespeitosas ou curiosas demais, mas a nossa fé não pode se basear simplesmente em afirmações. Precisamos entender, ao menos um pouco, aquilo que está ao alcance da nossa inteligência. A questão do amor entre o Divino Pai e o Filho, incluindo nisso também o Espírito Santo, leva-nos  ao mistério da Santíssima Trindade. Algo com certeza acima da nossa pobre compreensão humana. No entanto, bastaria lembrar as palavras do início do Evangelho de João: “E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós e nós contemplamos a sua glória como do Unigênito do Pai, cheio de graça e verdade” (Jo 1,14). Tudo foi feito por meio desta Palavra e “sem ela nada foi feito de tudo o que foi feito” (Jo 1,3). Portanto, o Filho “Unigênito do Pai”, desde sempre, participa do “fazer” de Deus que faz existir tudo o que existe. Igualmente, quando, no seu amor infinito, o Pai decide resgatar a humanidade do pecado e da morte, o Filho também está envolvido na obra da salvação. O Filho assume a nossa carne para reconciliar a humanidade, e toda a criação, com o Pai, e reconduzi-la definitivamente no caminho da Vida e da Luz. A cruz de Jesus não foi um preço a pagar ou uma cruel satisfação, foi a total e solidária participação do Filho, o Deus encarnado, com os demais “filhos” que o Divino Pai amoroso não queria perder. A cruz foi a entrega obediente do Filho ao Pai, em plena comunhão com ele, para que aquele amor, que é a essência e a plenitude de Deus, chegasse a todos; e o desamor, com os seus frutos de morte, fosse derrotado uma vez por todas. 

Jesus é de verdade o Filho muito amado e nele todos somos também amados. Por meio dele, o amor do Pai chega a todos os seus filhos e é oferecido novamente a todos. Por isso, João pode dizer: “De tal modo Deus amou o mundo, que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Sei que tudo isso é difícil para ser entendido. Mas não vamos dizer que ninguém nos ama. Nós participamos do amor do Pai ao Filho, amor este comprovado pela obediência da cruz. O “Filho amado” pelo Pai amou-nos “até o fim”. Quando nós também aprenderemos a nos amar como irmãos e nunca mais nenhuma criança diga que ninguém lhe quer bem? 

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