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“A Cura”

Reflexão para o IV Domingo do Advento | 19 DEZ 2020 – Ano “B”

1ª Leitura 2Sm 7,1-5.8b-12.14a.16 | Salmo: 88 | 2ª Leitura: 1Ts 5,1Rm 16,25-276-24 | Evangelho: Jo 1,6-8.19-28)

MACAPÁ (AP) | Por Dom Pedro Conti

Natal está chegando. A liturgia do Quarto Domingo de Advento nos apresenta a página bem conhecida do evangelho de Lucas, aquela que nós chamamos de “anunciação”. À Virgem Maria é dito para não ter medo, para confiar, porque nada é impossível para Deus. Maria, com o seu sim generoso, aceita o desafio de ser a mãe da criança que vai nascer. A ela é antecipado também o nome da criança, deverá ser chamado: Jesus. Na Bíblia, muitas vezes, o nome dado às pessoas não é mero instrumento de distinção dos demais. O nome indica a missão que aquele homem, ou mulher, deverá cumprir e que, portanto, dará o sentido mais profundo à sua vida.

“Jesus” significa “Deus salva”. Ouviremos isso na noite de Natal. O anjo dirá aos pastores: “Eu vos anuncio uma grande alegria… Hoje, na cidade de Davi, nasceu um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,10-11). Entendemos que se alguém precisa de salvação é porque está em perigo. Somente quem passa por dificuldade ou se sente ameaçado pede socorro. Nem sempre, claro. Gritar por ajuda exige, no mínimo, a capacidade e a humildade para fazê-lo. Nós, cristãos, estamos tão acostumados com o uso de certas palavras que pouco refletimos sobre elas. Parece que sabemos já todas as respostas. Sem nenhuma pretensão, porém, deixem-me fazer alguma comparação,  a partir do perigo no qual todos nós ficamos mergulhados neste ano: o coronavírus.

A humanidade inteira almeja e grita por uma “salvação”. Em parte, a resposta virá das vacinas. Todos nós rezamos por isso e aguardamos os resultados com muita esperança. Será mais uma vitória da ciência, da inteligência humana, usada a favor da vida. Podemos aplaudir e esperar a nossa vez de sermos, digamos, imunizados e libertos do perigo. No entanto quando tudo voltar, mais ou menos, ao normal, precisamos lembrar de outros “vírus” que circulam por aí e que Papa Francisco já apontou muitas vezes em discursos e documentos. Ao menos dois: o vírus do egoísmo e o vírus da indiferença. Terá vacinas para isso? Eis a boa notícia: o remédio e a cura já existe e têm  nome, chamam-se Jesus Cristo, o seu amor e a sua vida doada para nos salvar. Porém são vacinas especiais, funcionam diferente das que tomaremos contra o coronavírus. Não vêm de algum laboratório humano, mas do próprio Deus.

Antes, porém, temos que aceitar e nos convencer que estamos doentes. Os sintomas são conhecidos. O egoísmo nos fecha em nós mesmos. Quando a farinha é pouca, diz o ditado, “primeiro o meu pirão”. Só que, às vezes, o “pirão” são privilégios demais, direitos desiguais, desprezo para os pequenos e os diferentes, salários incomparáveis com o “mínimo” da maioria das famílias. A indiferença é uma doença fatal porque mata por dentro, zera os nossos sentimentos. Torna-nos impermeáveis a qualquer emoção que, por acaso, venha a nos incomodar ou sacudir. 

A “cura Jesus” é diferente de qualquer outro remédio, porque precisa absolutamente da nossa colaboração. Vai funcionar somente se nós quizermos ser curados. Não pode ser engolida à força ou administrada quando estivermos inconscientes. Ao contrário, o seu efeito é nos acordar da anestesia da acomodação, da dopagem de tantos discursos que não levam a nada. Não dá para tomar tudo numa ou duas doses só. É uma cura continua, porque as recaídas são constantes, muito mais que uma primeira e uma segunda onda. Mas a cura está garantida? Se nunca mais largarmos o remédio (Jesus), com certeza. Como vamos saber se a cura está fazendo efeito? Simples, se conseguimos nos alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram (Rm 12,15) é sinal de que começamos a quebrar o gelo da indiferença. Se, depois, estamos dispostos a sofrer, ao menos um pouco, para aliviar a aflição de quem talvez nem conhecemos, é sinal de que superamos a primeira fase do egoísmo.

É uma cura de pequenos passos. Não podemos desistir. Depois do Natal, virá a Páscoa e depois Pentecostes… e assim por adiante, sempre no caminho do Senhor Jesus, “Salvador” das nossas vidas. Coragem. Feliz Natal para todos!  

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