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Artigo de dom Pedro Conti: Eu seria listrada

Reflexão para o 16º domingo do Tempo Comum

Por dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Certo dia, um pregador fez esta pergunta para uma turma de crianças:

  • Se todas as pessoas boas fossem negras e todas as más fossem brancas, de qual cor vocês seriam? A pequena Rose Mary respondeu:
  • Reverendo, com certeza, eu seria listrada.

Graças a Deus, não existem pessoas listradas e o sermos bons ou maus não depende, de jeito nenhum, da cor da pele. Somos todos bem misturados; não pela cor da pele, mas pelo próprio bem e mal que, reconheçamos isso com honestidade, habitam juntos em cada um nós.

Na forma mais longa do evangelho de Mateus deste domingo, 16º do Tempo Comum, encontramos mais três parábolas do “discurso” de Jesus, iniciado domingo passado. Todas são introduzidas com as palavras: “O reino dos céus é como…”. Significa que a Jesus não interessa dar uma ou outra definição do “reino” em si, mas, ao contrário, apresentar, de forma bem variada, a dinâmica daquilo que o reino produz, antes e acima de qualquer explicação. O “reino dos céus” é algo que está sempre acontecendo, uma história que está sendo construída, e que tem um desfecho garantido, apesar das circunstâncias que podem parecer adversas ou das probabilidades de sucesso que o senso comum avalia olhando, simplesmente, de fora.

Vamos lembrar brevemente as três parábolas. A primeira é aquela do joio e do trigo. Além da interpretação que o próprio evangelho traz, é fácil perceber que o joio representa o mal e o trigo o bem. No campo, que é o mundo – mas também é a existência de todos nós – eles crescem juntos. Só ao passo que as plantinhas vão desenvolvendo, será possível distingui-los. O trabalho de todos é vencer a tentação de arrancar logo o joio e, ao mesmo tempo, continuar a não confundir os dois. Justamente porque o reino é algo que ainda está acontecendo precisa cultivar a virtude da paciência e não querer julgar tudo às pressas. Aliás, o julgamento final acontecerá, mas será do Filho do homem, do “Senhor da messe”. Graças a Deus, será ele a decidir porque somente o seu olhar chega ao profundo do coração de cada um; ele vê o bem e o mal, e não fica só na exterioridade. Cabe a cada cristão sincero praticar aquela tolerância que é, ao mesmo tempo, misericórdia e vigilância. Misericórdia, porque devemos admitir a possibilidade de errar se queimarmos, o trigo junto com o joio, antes do tempo que só Deus conhece. Vigilância constante, porém, também necessária, para ter consciência da presença do joio, para proteger o trigo, fazê-lo crescer bem, porque, somente assim, um dia, “os justos” brilharão como o sol no reino do Pai. Vamos ver agora as outras duas pequenas parábolas.

Na história humana também a questão do reino pode ser considerada pouca coisa, algo muito pequeno, quase invisível, como a semente de mostarda. No entanto o reino tem uma força própria, misteriosa, como acontece na natureza. Aquela sementinha vai crescer até se tornar uma árvore frondosa capaz de dar abrigo aos passarinhos. Surpresas do reino.
Por fim, a parábola do fermento na massa. A farinha é muita e o fermento tão poco, mas a mulher experiente mistura e amassa bem o conjunto. Toda a massa ficará fermentada e o bom pão garantido.

Nessas duas parábolas, tem um grande segredo: tudo, digamos, funciona a contento. A semente de mostarda, como na parábola do semeador, se transforma e produz fruto. Assim o fermento mexe com a farinha que, por sua vez, deixa-se fermentar. E a mulher também contribui com o seu trabalho.
Nesta altura, só nos cabe perguntar, a nós mesmos, se descobrimos ou não “as coisas escondidas desde a criação do mundo” (Mt 13,35) e que Jesus disse que estava proclamando para cumprir o que o profeta prometeu. O que nos parece “injustiça” de Deus, que não castiga, na realidade é a sua grande misericórdia. Deus nos espera. Ao contrário, nós cristãos confundimos paciência com acomodação. O “fermento” que faz levedar toda a massa, como o sal da terra e a luz do mundo, deveríamos ser nós, mas não tem jeito, continuamos indecisos demais. Continuamos bem listrados.

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