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Artigo de dom Pedro Conti: A pregação

Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá

Saindo do convento, frei Francisco encontrou frei Ginepro. Este era um homem simples e bom e Francisco gostava muito dele. Disse-lhe:

– Frei Ginepro, vamos pregar o evangelho!

– Meu pai – respondeu o frade – o senhor sabe que eu tenho pouca instrução. Como poderei pregar ao povo?

Mas, porque Francisco insistia ele foi junto. Andaram por toda a cidade, pregando em silêncio a todos aqueles que trabalhavam nas oficinas e nas hortas. Sorriram às crianças, especialmente aos mais pobres e maltrapilhos.

Trocaram alguma palavra com os idosos. Acariciaram os doentes. Ajudaram uma mulher a carregar alguns baldes de água. Depois de ter atravessado a cidade algumas vezes, Francisco disse a frei Ginepro:

– Está na hora de voltar para o convento.

– E a nossa pregação? – Perguntou o bom frade

– Já a fizemos, já a fizemos. – respondeu o santo sorrindo.

Depois de ter iniciado o sermão da montanha com a proclamação das Bem-Aventuranças (que teria sido o evangelho de domingo passado), o evangelista Mateus coloca duas afirmações de Jesus dirigidas aos discípulos. Ambas iniciam com um forte “Vós sois” e, logo em seguida, vêm as duas comparações: “sal da terra” e “luz do mundo”. Não são palavras de convite ou de exortação. É questão mesmo de identidade e de missão. Ou seja: ou os “cristãos” são “sal e luz”, em meio à humanidade, ou, a esta, faltará o gosto do tempero e o brilho iluminador. Por isso, Jesus continua explicando que se o sal perde o sabor não serve mais para nada e se a luz fica escondida também não cumpre o seu papel, torna-se inútil. O mais curioso das duas comparações é que uma, o sal, quando se mistura, desaparece, ao passo que a outra, a luz, para iluminar deve ser bem visível. Parece uma contradição: afinal, os cristãos devem sumir ou chamar atenção?

A resposta está no próprio evangelho. O que vale não é o esquecimento ou sucesso dos cristãos em si, mas os frutos, as consequências do ser “sal” que tempera e preserva e ser “luz” que clareia ao seu redor. O que vale, para o sal, é que o alimento fique gostoso ou, lembrando o uso do sal para a conservação dos alimentos como era costume naquele tempo, que a fé, a Aliança, o amor a Deus e ao próximo sejam preservados. Se o sal nem tempera – não motiva mais a vida e nem salva do apodrecimento – a fé é abandonada. De fato, não serve para nada. Igualmente, as boas obras dos cristãos, podem ser até luminosas e chamar atenção, mas aqueles que as virem louvarão ao “Pai que está no céu” e não os cristãos em si. A alegria dos discípulos de Jesus não deve estar, portanto, na afirmação e no sucesso pessoal, mas na possibilidade de colaborar na memória viva e no louvor a Deus. Atitude da qual os próprios cristãos sempre devem zelar.

Aqui está a nossa fraqueza, mas também, acredito, a nossa consolação. O nosso defeito é querer ser reconhecidos, receber aplausos e elogios, nem que seja de um pequeno grupo de seguidores sempre prontos a bater palmas. De outra forma, não consigo explicar tantos grupos e grupinhos dentro e fora da Igreja. Parece que o sal, em lugar de preservar a unidade, serve mais para salvaguardar alguma posição ou poder. Temos medo de ser só e simplesmente “cristãos”. No entanto, esta qualidade é a consolação de muitos e muitas que nunca aparecem e nunca chamam atenção, mas são fiéis cada dia e cada hora nas coisas simples da vida e dos seus compromissos: na família, no trabalho, com os vizinhos, conhecidos ou não, e com qualquer outro que precise de ajuda. Quantas “obras” maravilhosas de amor, de serviço, de paciência e gratuidade são praticadas sem ser divulgadas por aí. A bondade, graças a Deus, não pede badalação, simplesmente age, faz acontecer. É muito bom que continue assim, porque se não fosse, o dia em que uma obra boa virasse manchete, poderia significar que nos acostumamos tanto com a violência, a corrupção e a morte, que seria o bem a parecer estranho. Não, por favor, que o bem continue a realizar a sua “pregação” humilde, simples e escondida e, seja o mal, infelizmente, a chamar a atenção. Claro, para nós todos, conhecendo-o, fugirmos dele.

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