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Artigo de Dom Pedro: As folhinhas de alecrim

As folhinhas de alecrim

Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá
Escreveu uma jovem filha. “Minha mãe sempre colocou muitas folhinhas de alecrim no risoto do meu pai e ele faz quarenta anos que tira as folhinhas, uma por uma, antes de comê-lo. Meu pai faz isto com muita paciência e a perícia de um relojeiro suíço. São quarenta anos que ele pede à minha mãe de não colocar o alecrim na comida, mas ela responde que sem aquele tempero o risoto não tem gosto algum. Eu acho que, às vezes, minha mãe exagera, joga inteiro galhos de alecrim no risoto. Pelo jeito, eles se amam ainda. Eu, se estivesse no lugar do meu pai, já a teria largada. Duas linhas teriam sido suficientes: Te deixo por causa do alecrim no risoto. Entendi que, para você, ele é mais importante do que eu. Adeus para sempre. Lembra só de dar a vacina para o cachorro. Mas isto nunca aconteceu. Meu pai pegou leve e continuam os dois com um amor longo quarenta anos e que tem o cheiro do alecrim”.
É sempre muito bom concluir o ano com uma atenção especial às famílias. Em primeiro lugar veneramos àquela única família que acolheu o Menino Deus. Mal conseguimos imaginar a vida do dia a dia na pequena aldeia de Nazaré. Foi lá que Jesus cresceu, aprendeu a ser filho, a ajudar em casa e a rezar. Antes de se tornar um pregador itinerante, ou algo semelhante, ele deve ter praticado alguma profissão porque, naquele tempo, o trabalho manual não somente servia para a sustentação da família, era também valorizado e respeitado. Assim se passaram, mais ou menos, os primeiros trinta anos da vida de Jesus, aquela que chamamos de “vida escondida” porque, de fato bem pouco sabemos dela. Estudos e escavações nos ajudam somente a imaginar como devia ser a rotina de Maria, José, o carpinteiro, e do menino Jesus que crescia.
E hoje? Será mais fácil descrever como é a vida das nossas famílias? Não acredito. Se olhamos de fora, talvez, em muitas coisas, que estão na moda e no consumo de massa, todas elas se assemelham. Mas se olhamos a vida das pessoas, toda família é diferente e, para quem não faz parte dela, tem sempre algo de incompreensível porque único e irrepetível. Somos pessoas diferentes e, portanto, formamos também famílias diferentes. Todo pai é pai por ter colocado algum filho no mundo, mas cada pai é único. Tem o seu jeito de olhar, de falar, de abraçar. Tem as suas manhas, claro. O mesmo vale para as mães. A nossa é só “nossa”, também se a partilhamos com outros irmãos. Para os pais eles são os filhos. Todos diferentes. Uma bela confusão e uma grande maravilha ao mesmo tempo. Por isso cada família tem os seus segredos e as suas recordações. Para quem olha de fora, um retrato na parede pode não dizer nada, mas para quem conheceu aquela pessoa ou viveu aquele momento, foi tudo uma história real, vivida, sofrida, guardada no coração.
O tempo do Natal pode nos ajudar a reconhecer a riqueza humana das nossas famílias. É um patrimônio que estamos desvalorizando quando trocamos as relações pessoais com mensagens e figuras digitais. Elas já vêm preparadas, são iguais para todos e em qualquer lugar do mundo, não tem nada de original. Servem aos preguiçosos que preferem apertar uma tecla em lugar de olhar nos olhos a pessoa com a qual estão falando.
Não é a família em si que está em crise, somos nós que estamos ficando desumanos. Pensamos que seja possível transformar tudo e todos em objetos para ser comprados, vendidos e jogados fora quando nos enjoamos deles. Queremos ser felizes, esquecendo que nunca o seremos sozinhos, fazendo os cálculos do pró e do contra, tentando jogar sempre para à nossa vantagem. Não queremos ser incomodados por choro de criança ou queixa de velho, temos música para ouvir ou negócios para fechar. Bendita a família onde se perde tempo um com o outro. Onde se aprende desde pequenos a chorar com quem chora e se alegrar com quem se alegra. Se aprende a suportar e a perdoar, a corrigir e a ser corrigidos. Onde os corações – tão diferentes – se emocionam juntos. Onde se aprende, enfim, a crer, a esperar, a amar. Para sempre. Com ou sem tantas folhinhas de alecrim.

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