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Artigo de Dom Pedro

O diamante arranhado
Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá

Um jovem príncipe do norte da Índia se apaixona, certo dia, por uma bela princesa do país vizinho. O casamento é decidido. Como sinal e penhor de amor eterno, ele lhe dá o mais belo diamante dos seus tesouros, a ser engastado no centro da preciosa coroa que ele pretende lhe oferecer na manhã de núpcias. Ele confia o diamante ao mestre dos joalheiros. Mas este, num instante de distração, deixa a ferramenta deslizar num momento delicado do engaste. Isso produz uma estria em toda a extensão da maravilhosa joia. Desespera-se o artista. E, mais do que ele, o príncipe. A notícia se espalha. Um velho artesão se apresenta ao palácio e diz: “Príncipe, soube da sua tristeza. Confiai-me por uma noite vosso diamante”. Ao amanhecer, o artesão leva ao príncipe maravilhado a mais bela joia já vista. Com habilidade e paciência, o talentoso lapidador tinha feito da profunda ranhura o próprio talo de uma esplendida rosa desabrochada, que agora brilha deslumbrante.

O evangelho de Lucas deste domingo nos apresenta a ida em missão e a volta dela de “outros” setenta e dois discípulos. “Outros” porque Jesus já tinha enviado antes os doze (Lc 9). É fácil perceber que “12” e “72” (12×6) são números simbólicos. É o começo da nova Comunidade de Jesus; uma comunidade que é enviada em missão e cresce. Esta devia ser a experiência do evangelista e das suas comunidades, quando escreveu o evangelho. Algumas palavras chamam atenção. O campo da missão é muito grande (a messe!), será que os operários darão conta? O tamanho da missão, o chamado dos trabalhadores e a resposta deles, tudo é dom de Deus, o verdadeiro “dono” do “campo” (a história da humanidade). Ele sabe o que precisa e de quem precisa. O que cabe a nós é rezar, pedir, para que não faltem cristãos, discípulos missionários do Reino. Ou seja: cada um de nós deve pedir sempre que o Divino Espírito Santo, o Espírito da missão, nos torne testemunha viva do evangelho. O Senhor da messe chamará alguns, do meio do seu povo, para servirem como padres, religiosos e religiosas, mas todo o Povo de Deus, todo batizado e batizada é, por si mesmo, enviado.

A Boa Notícia do Reino de Deus que chegou, pode ser acolhida ou não. Por ser o “reino” da liberdade e da gratuidade, por ser o reino do amor, nunca poderá ser uma obrigação ou uma imposição. É um dom oferecido e só pode ser acolhido livremente, com júbilo e gratidão. O Reino nunca será propriedade exclusiva ou monopólio de alguém. Terá que ser sempre anunciado e oferecido a todos e, de maneira especial, àqueles que ainda não o encontraram, “pobres” porque ainda não sabem quanto Deus Pai os ama.

Nos últimos versículos desse trecho evangélico, a missão é apresentada com resultados extraordinários. Os “missionários” voltam felizes e orgulhosos. Parece que tudo aconteceu rapidamente e uma vez por todas. Muitas vezes os Evangelhos antecipam o resultado “final”, iniciado com a vitória de Jesus ressuscitado sobre o mal e a morte. “Satanás” já cai do céu. O deus da mentira foi derrotado e deixa o lugar ao Deus Verdade e Amor. Mas nós ainda o colocamos lá, adorando-o em todas as formas dos ídolos deste mundo que nos fascinam, atraem e confundem. A vitória começou, mas deve ser levada ao comprimento com a nossa firme e fiel colaboração. Precisamos que o Reino comece em nossa vida e em nossa casa. Os nomes dos “santos” (os batizados) antes de estar no livro das paróquias estão escritos no céu, no coração do Pai. Nós gostaríamos que tudo acontecesse de uma vez só, que nunca mais virássemos as costas ao amor do Senhor, que nunca mais o trocássemos com as falsas imagens dele fruto das nossas manias de grandeza e poder. Mas o Reino é mais um canteiro de obras que um monumento a ser admirado. É como a pérola preciosa que quem a encontra vende tudo (Mt 13,45-46)), mas nós a arranhamos e precisa de muita, muita, paciência para transformar em beleza o que nós deturpamos. Somos todos artesãos do Reino.

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