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Artigo de Dom Pedro

Também estou com frio

Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá

Um jovem imigrado africano escreveu: “Estava com fome e vocês fundaram um Clube Social para discutir a minha fome. Agradeço. Estava preso e vocês foram para a igreja rezar para a minha libertação. Agradeço. Estava nu e vocês refletiram exaustivamente sobre as consequências morais da minha nudez. Estava doente e vocês dobraram os joelhos para louvar ao Senhor, porque vocês tinham saúde. Estava sem casa e vocês me deram muitas explicações sobre a grandeza do amor de Deus. Vocês parecem muito piedosos e tão perto de Deus. Mas eu continuo a ter fome, estou sozinho, nu, doente, preso e sem casa. Também estou com frio”.

No Quinto Domingo de Páscoa, a Liturgia da Palavra nos oferece um pequeno trecho do discurso de Jesus durante a última Ceia. O evangelista João faz questão de ressaltar que estas palavras foram ditas “depois que Judas saiu do cenáculo”. Está chegando a “hora” do sofrimento e da cruz, mas Jesus fala de glorificação do Filho do Homem e de Deus. Nada de poder ou sucesso humano; a máxima humilhação será a inimaginável exaltação da grandeza do amor de Deus. O Pai foi capaz de doar o seu Filho em prol da humanidade e este, por sua vez, oferecendo a sua vida na morte ignominiosa da cruz, foi fiel até o fim ao que tinha feito e ensinado: a misericórdia de Deus para com todos os pobres e pecadores. Aquele que já tinha lavado os pés dos discípulos (Jo 13,1-17), tinha afirmado “se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só; mas, se morre, produz muito fruto” (Jo 12,24) e que logo dirá: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13), agora pode deixar a eles também o seu “novo” mandamento. O amor fraterno, capaz de se espalhar e iluminar a todos, será o sinal visível pelo qual os discípulos do Senhor deverão ser reconhecidos. Não será a cor de uma bandeira, de uma camisa, um livro, ou um rito. Será o amor, do mesmo jeito que Jesus amou. Amor total, incondicional, capaz de perdoar os próprios perseguidores e o malfeitor que, crucificado junto, o chamou pelo nome, instaurando assim uma surpreendente familiaridade de dor e esperança: “Jesus, lembra-te de mim…” (Lc 23,42).

Fica, contudo, a pergunta: o que queria mesmo dizer Jesus com aquelas palavras: “Como eu vos amei”? Significa igual na maneira, na intensidade ou igual na generosidade? Com certeza Jesus não falava da cruz em si e por si, porque somente ele será para sempre “o Filho do Homem” e, também, o Filho que Deus Pai enviou. Nunca mais terá outro “Jesus” morrendo na cruz! Ele falava do amor proposto a cada ser humano como sentido da existência e que nos faz doar a nossa própria vida nas infinitas maneiras que as circunstâncias nos possibilitam. Pode ser a entrega dos mártires, por causa do Evangelho, mas também de todos aqueles e aquelas que lutaram e lutam por defender a vida, a justiça e a paz das pessoas e, hoje, também do planeta. Pode ser o amor de uma mãe, ou de um pai, de um irmão ou irmã que acolhem, todos os dias, um filho ou um irmão com deficiência. Filhos que cuidam dos pais idosos até o fim de suas vidas. Pode ser o amor de um padre, de um missionário, de um religioso ou religiosa que todos os dias, na comunidade, atendem a todos os que precisam, cristãos ou não. Pode ser o amor de um profissional da medicina, da educação, dos meios de comunicação, das finanças. Até a política pode ser um grande ato de amor quando visa o bem-comum, com atenção especial aos empobrecidos e esquecidos. Não tem uma receita mágica pelo amor e nem medida. É um dom que devemos aprender, cultivar e deixar crescer em nós. Passa pela compaixão, a solidariedade e a criatividade. Nasce no coração, mas é feito de gestos simples e concretos. O fruto das nossas orações e, mais ainda, da memória que fazemos em todas as Missas da vida doada de Jesus, deveria ser sempre algum compromisso na prática do amor. Se ainda não sabemos doar nada de nós, do nosso tempo, do que temos e somos, é sinal que ainda não tomamos a sério o mandamento de Jesus. Afirmamos ser cristãos, mas, somos reconhecidos pelo amor ou por outras coisas?

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