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As palavras mágicas

Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá

Quatro irmãos estavam atravessando a floresta de um país longínquo. Três tinham estudados magia, alquimia e cabala. O quarto, o mais moço, não sabia de nada. No caminho encontraram a ossada de um leão. O irmão mais velho disse:

– Eu conheço palavras que podem colocar de pé esta ossada. Dito, feito: pronunciou as palavras mágicas, os ossos se juntaram e o esqueleto ficou de pé. O segundo irmão disse:

– Eu conheço palavras que podem juntar a carne a esses ossos. Logo disse a fórmula mágica e ao redor dos ossos se formaram os nervos, os músculos, todos os órgãos, o sangue e o couro. O terceiro irmão mais velho também queria dar prova dos poderes mágicos das suas palavras e disse:

– Eu posso dar vida a este animal! O irmão mais novo, porém, implorou para que não fizesse aquilo; deviam ter prudência porque o leão podia devorar os quatro.

– Não se preocupe – responderam juntos os três irmãos mais velhos – você não sabe de nada, nós conhecemos outras palavras que farão voltar ao pó esse leão. No entanto, o irmão mais novo achou por bem amarrar o leão em quanto ainda estava inanimado. Quando o irmão pronunciou as palavras mágicas, o leão, agora vivo, rugiu e quis se jogar contra os quatro. Os três irmãos mágicos ficaram tão apavorados que, de repente, esqueceram as palavras necessárias para deter o leão. Ainda bem que o irmão mais novo, que não sabia nada de magia, tinha arco e flechas. Matou o leão e salvou a todos.

Uma historinha de palavras mágicas e imprudentes, para chamar a nossa atenção sobre as palavras de Jesus que Pedro reconhece, no evangelho deste domingo, ser “palavras de vida eterna” (Jo 6,69). Assim se conclui o capítulo 6 do evangelho de João, que nos acompanhou nesses últimos domingos. Jesus falou muito sobre ele mesmo como “o pão vivo descido do céu”, um “pão”, porém, que é a carne, ou seja, a sua própria vida, “dada para a vida do mundo” (Jo 6,51). Essa passagem da “carne e sangue” dele para o pão e o vinho, sinais escolhidos por Jesus para a Eucaristia, nunca será fácil. Quando fazemos memória das palavras dele na última ceia não estamos repetindo um evento que aconteceu uma vez por todas no Calvário, estamos participando, ativamente, também se através dos sinais sacramentais, daquele momento único e irrepetível.

Nós, cristãos, acreditamos que o pão e o vinho, no altar, se tornam o Corpo e o Sangue de Jesus, corpo doado e sangue derramado para a salvação da humanidade e de toda a criação. O padre não é um mágico. É o Espírito Santo, invocado pela Igreja, comunidade convocada e reunida pela fé, que faz acontecer, no altar, o “mistério da nossa fé”. Somos assim resgatados do pecado e da morte. Na Eucaristia, alimentamo-nos com o Corpo e o Sangue de Jesus para aprender sempre de novo com ele a doar também a nossa vida. Para nós, somente o amor de Jesus, a sua vida e as suas palavras, poderão mudar a história da humanidade, por crucificado, desprezado, abandonado que ele continue sendo ainda hoje.

Para todos, custa confiar nas suas palavras exigentes. Sempre podemos encontrar desculpas para dizer que são palavras “duras” e, por isso, acima das nossas forças. Muitos desistem de acreditar, trocam a proposta de Jesus por projetos humanos, algo que parece mais fácil, cômodo e realista. Apesar de todas as diversidades e opções também entre nós, é nesta escolha que se distinguem os cristãos dos demais: confiar nas palavras de Jesus e por elas orientar toda a nossa vida, as decisões, os projetos, as esperanças. “A quem iremos, Senhor?” diz Pedro (Jo 6,68). É um grito por socorro, para ter coragem e perseverança. Sempre irão aparecer convites para seguir crenças e discursos mais vantajosos, seguros e a curto prazo. Nada de vida eterna. Jesus nos deixa livres. Podemos ir embora, esquecer o nosso batismo e as nossas promessas. Para continuar firmes e reconhecer em Jesus “o santo de Deus”, não servem fórmulas mágicas. Bastam as armas de sempre: a Palavra de Deus e a Eucaristia. Mais a participação, a comunhão, a misericórdia, a partilha e a generosidade. São eles o nosso arco e as nossas flechas.

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