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O que virá a ser este menino?

 

Por dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

O vigilante de um grande hipódromo fechou a sua conta no banco. Lá, ele tinha depositado a poupança da vida inteira. Quando recebeu o dinheiro, deu-o todo ao seu neto para que pagasse os estudos dele na universidade. Quando souberam disso, alguns dos seus amigos mais próximos o questionaram sobre a sua decisão. Queriam saber por quê tinha feito aquilo. O homem sorriu e disse: “Todos os dias vejo milhares de pessoas apostar dinheiro nas corridas dos cavalos e muitos deles já perderam até a camisa! Eu pensei que, desta vez, tinha uma boa chance de ganhar apostando sobre um ser humano, um jovem, por sinal”.

Neste domingo, a festa da Natividade de São João Batista prevalece sobre a liturgia dominical. Com isso, a Igreja nos propõe a olhar a pessoa do Batista, a sua missão e a longa preparação que antecipou a vinda do Salvador. Sempre temos a oportunidade de recordar a pregação de São João durante o tempo litúrgico do Advento. Dele, Jesus disse que era o maior entre os nascidos de mulher, no entanto “o menor do reino dos céus é maior que ele” (Mt 11,11). João Batista teve seguidores, mas a grande missão dele foi, justamente, preparar o caminho ao Senhor que devia vir. João foi a voz, Jesus a Palavra (Mt 3,3). João foi uma lâmpada, Jesus a Luz (Jo 5,35). É, sobretudo, o evangelista Lucas que nos apresenta com detalhes o nascimento de João. Ele se serve de um artifício literário, o chamado paralelismo, entre João e Jesus. As coisas iguais ressaltam as diferenças. Isabel é idosa e já estéril; Maria é virgem. No entanto, extraordinariamente, ambas ficam grávidas, porque nada é impossível para Deus (Lc 1,37). Aos poucos, Lucas nos deixa curiosos. Se da criança João, as pessoas se perguntam: “O que virá a ser este menino?” (Lc 1,66), o que pensar de Jesus?

Muitas coisas podemos aprender, ou lembrar, com a festa da Natividade de São João Batista. Somos convidados a acreditar que o Deus Pai, que Jesus, o Filho, veio nos revelar, tem um grandioso plano de amor pelas suas criaturas. Esse projeto passa pela história de homens e mulheres reais, seres humanos com suas dúvidas e incertezas, mas também com suas escolhas livres e corajosas. João Batista é o último dos profetas (Mt 11,13). Com ele se encerra uma longa história de personagens que colaboraram para que nunca fossem esquecidas, ou distorcidas, a Aliança, mais vezes renovada, e a Lei, caminho para realizar o sonho da Terra Prometida. Nela deviam correr o leite e o mel da fartura, mas também os rios da justiça e da liberdade, do respeito pela vida e a dignidade de todos.

Cada um, a seu modo, todos os profetas anunciaram a fidelidade de Deus e a sua paciência com o povo escolhido. Ao mesmo tempo, eles denunciavam a falsidade dos ídolos, o abuso do poder dos grandes, a tristeza dos miseráveis e a opressão de uma religião legalista e excludente. Ao profeta Jeremias, Deus diz: “antes de formar-te no seio de tua mãe, eu já te conhecia…eu te consagrei…(Jr 1,5). Esse é o nosso Deus, chama homens e mulheres a colaborar com o seu plano, confia neles, desde o início das suas vidas, investe neles, para usar uma palavra atual. A nossa resposta alegre ao chamado do Senhor para colaborar com nele na construção do “reino” não é nada mais que a possibilidade de lhe apresentar os frutos de tudo aquilo que ele já fez e continua fazendo por nós. Ainda assim, ele não nos cobra esta resposta como se fosse um direito dele, ou, ao contrário, uma dívida de nossa parte. Não. Podemos usar dos dons que ele nos deu até contra ele e contra os nossos próprios irmãos. Por isso, o primeiro sinal que o reino de Deus já começou é a gratuidade da nossa colaboração com o seu crescimento. O reino não funciona como um negócio ou uma empresa; é um dar tudo que se transforma em receber tudo, um morrer que se torna vida. O vigilante do hipódromo deu toda a sua poupança para o neto estudar. E Deus Pai “amou tanto o mundo que deu o seu Filho único” (Jo 3,16). O que mais Deus podia investir para nos salvar? O que vai ser de nós…depende…de nós. Deus fez e continua fazendo a sua parte maravilhosa.

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