Festividade do Círio de Nazaré de Macapá

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TEMA do CÍRIO 2026:  “Maria e Jesus, presenças que renovam o Vinho da Família”.

LEMA:  “E a mãe de Jesus estava presente” (Jo 2,1)

Introdução

Neste ano, 2026, a Igreja Católica no Brasil nos convida a refletir sobre a questão habitacional. A situação da moradia no Brasil foi apresentada pela Campanha da Fraternidade de 2026 (CNBB) que refletiu sobre o tema “Fraternidade e Moradia”. Os dados estatísticos revelam um grave déficit habitacional de seis milhões de residências; cerca de trinta milhões de famílias vivem em situação de insalubridade habitacional e mais de trezentas mil pessoas vivem em situação de rua.

 A questão habitacional brasileira é muito delicada. Dentro desse quadro, torna-se ainda mais desafiador a manutenção da qualidade da convivência familiar. Milhões de pessoas vivem em espaços reduzidos, sem privacidade, constrangidos, sem ambientes e nem clima de boa convivência. Essa questão física é um aspecto muito importante que favorece, estimula ou condiciona negativamente a convivência familiar.

Todavia, a questão familiar não se esgota na dimensão física da moradia. É fácil construir uma casa, uma barraca, um abrigo e torná-los habitáveis; difícil é qualificar as relações humanas dentro desses ambientes. Para isso, precisamos investir na formação humana, na assimilação de valores morais, na promoção da sensibilidade, na consciência ética, na amabilidade nas relações e na evangelização que estimula a prática do Amor.

Com a Festividade de Nossa Senhora de Nazaré deste Ano em Macapá, queremos suplicar a Jesus Cristo a melhoria da qualidade habitacional do povo Amapaense e a Nossa Senhora de Nazaré que interceda pela transformação dos nossos lares como aconteceu em Caná da Galileia (cf. Jo 2,1-11).

  1. Jesus e Maria na Família 

É muito ilustrativa a presença de Maria, Jesus e seus discípulos numa festa de casamento. É possível que lá estivesse a totalidade da Sagrada Família, apesar de não mencionar a pessoa de José que, naquela altura, já seria um idoso ou já teria falecido. 

Na referida narração não são mencionados os nomes dos “noivos”, portanto, não sabemos como se chamavam. Na verdade, os noivos representam a humanidade que, apesar dos seus recursos, sonhos e projetos, jamais terá a plenitude por si mesma, pois é carente por natureza. Mas os seus horizontes se descortinam quando ela se abre para acolher o dom da fé, representado pelo simbólico convite endereçado a Jesus Cristo a participar da festa de casamento. 

O convite significa que a fé é Dom de Deus que leva a humanidade a abrir-se e a acolher o Salvador, Mestre e Senhor. Na aliança com Jesus a humanidade se enche de esperança, de segurança; a família supera suas carências e será possível a experiência da abundância de amor, alegria, paz, diálogo, entendimento, atenção, cuidado. O convite evidencia a liberdade da humanidade diante dos bens divinos. Deus que nos criou para a liberdade, a respeita sempre. 

O convite a Jesus foi estendido aos seus discípulos! Isso significa que quem recebe o dom da fé cristã, está naturalmente abrindo-se e entrando no dinamismo da vida da Igreja. Os discípulos de Jesus é a Igreja! Nenhuma família cristã deve estar isolada. A Igreja é uma grande família; família formada por famílias. Por isso, um dos aspectos mais importantes da pastoral familiar, é a promoção da cultura da amizade e da solidariedade entre as famílias.

Vivendo num mundo profundamente marcado pelo materialismo, pela exagerada preocupação com o bem-estar econômico e forte influxo da cultura tecnológica, muitas famílias começam e fracassam por falta da abertura à dimensão religiosa.

Na cultura contemporânea as relações conjugais são profundamente vulneráveis, superficiais, epidérmicas, imediatas, passageiras, com pouco compromisso com o outro; muitas vezes as novas famílias surgem sem nenhum reconhecimento legal; isso é sinal de que impera na sociedade uma mentalidade fechada, fundada no prazer; tudo isso evidencia um modo de viver que cada vez mais, vai prescindindo da pessoa de Jesus Cristo e da Igreja.

  1. Maria: presença que faz a diferença 

Nessa linda narração do evangelista João, percebemos com clareza um especial destaque à pessoa de Maria. Vejamos o que observa São João em relação às atitudes de Maria naquela festa de casamento. 1. Antes de tudo, destaca a presença de Maria quando diz: “e a mãe de Jesus estava presente” (Jo 2,1). 2. “Faltou vinho e a mãe de Jesus lhe disse: «Eles não têm mais vinho!» (Jo 2,3).  3. “A mãe de Jesus disse aos que estavam servindo: «Façam o que ele mandar.» (Jo 2,5).

A primeira observação destaca a importância da presença de Maria na vida de uma família, na Igreja e na Sociedade. Maria é a presença que faz a diferença, porque a sensibilidade perpassa a totalidade do seu ser: sua mente, seus olhos, seu coração. A pessoa da mãe faz toda a diferença numa família e daí na sociedade! A orfandade materna pesa sempre muito mais afetivamente do que aquela paterna.

Pregado na Cruz, Jesus compartilha a sua mãe e sua maternidade com seus discípulos na pessoa do discípulo amado. Após declarar a João que a sua mãe era também mãe dele, o discípulo levou Maria para casa (cf. Jo 19,26-27). Jesus não quis e não quer a orfandade da sua Igreja. Recordemos que a partir daí, Maria se integra plenamente na Vida da comunidade primitiva como mãe de todos, memória viva de Jesus, mestra de sensibilidade e de educação como toda mãe. Um lar sem mãe, é carente de sensibilidade, ternura e iniciativas educativas.    

Na comunidade primitiva Maria, como mãe, alimentava na Comunidade do seu filho os ideais de fraternidade e unidade por Ele deixado. A comunidade primitiva também foi educada pelo Amor materno de Maria. Por isso, “todos eles tinham os mesmos sentimentos e eram assíduos na oração…” (At 1,14); “eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, no partir do pão e nas orações; todos os que abraçaram a fé eram unidos e colocavam em comum todas as coisas” (At 2,42.44). “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava propriedade particular as coisas que possuía, mas tudo era posto em comum entre eles… E todos eles gozavam de grande aceitação.  Entre eles ninguém passava necessidade…” (At 3,33-34).

A promoção das virtudes presente num lar, sem dúvida, é de responsabilidade de todos dentro da família, de modo particular do pai e da mãe; mas tudo toma uma proporção extraordinária quando a mãe é profundamente sensível, zelosa e educadora.

  1. Falta de vinho: o fenômeno das carências nas famílias

A falta de vinho nessa narração, dentro no contexto familiar, ganha um sentido profundamente simbólico. A falta de vinho na celebração daquela aliança matrimonial significava a carência do amor, da alegria, da espontaneidade, da liberdade nas relações, da esperança, do conforto, da segurança, da amizade entre as pessoas etc.

Lamentavelmente milhões de famílias nos dias de hoje estão sofrendo pela carência do vinho da alegria nas relações interpessoais; quando isso acontece cria-se abismo entre as pessoas e a frieza passa a dominar as relações. Muitas famílias estão sofrendo por causa da falta do vinho da amizade, da convivência, do cuidado recíproco e, dessa forma, o lar passa a ter uma característica hoteleira, porque falta a comunicação e o interesse pelo outro que provoca o encontro, a partilha e a liberdade de estar juntos.

Muitas famílias estão sofrendo por causa da falta do vinho do respeito e da compaixão, que promovem a indiferença, atitudes de violência e de total insensibilidade diante das necessidades internas da família. Não poucas padecem o mal da divisão, ódio e vergonha por causa de violências internas como brigas, conflitos religiosos, drogadição de algum membro da família, crime sexual ou abusos em geral. Enfim, muitas famílias carregam o peso da cruz do egoísmo que estimula a ganância, a ingratidão, a falta de partilha e do espírito de sacrifício pelo outros.   

Essas e tantas outras realidades não são absolutas e, por isso, podem ser totalmente transformadas quando cada membro da família se abre para o dom da fé e, com serenidade, faz um caminho de conversão. Maria é a mestra da educação nesse processo de conversão; é a mãe que educa nossas famílias para a promoção da fraternidade, do perdão, da misericórdia, da unidade, da comunhão, da generosidade, da obediência, da capacidade de nos sacrificar pelos outros.  Em Caná da Galileia, Maria não só assumiu uma postura sensível, mas diante daquela realidade de carência, buscou a transformação da mesma educando os servos para a obediência. “Façam o que ele vos disser” (Jo 2,5).  

  1. O bom vinho: o bem-estar de todos 

Maria e Jesus, são presenças que renovam o Vinho da Família; são manifestações do Amor da Divina Providência que nada deixa faltar no ambiente familiar onde todos estão abertos para o testemunho do Amor. Onde está o Amor, Deus aí está! É a partir do Amor que garantimos o essencial para a nossa vida pessoal e o bem-estar das nossas famílias.

A narração da festa de Caná da Galileia se encaminha para a conclusão com uma frase fantástica do mestre de cerimônia elogiando o noivo dizendo-lhe: «Todos servem primeiro o vinho bom e, quando os convidados estão bêbados, servem o pior. Você, porém, guardou o vinho bom até agora.» (Jo 2,10). Na família quando todos fazem o esforço possível para conservar o vinho bom do Amor em todas as circunstâncias, se supera os problemas, obstáculos, crises, desafetos, conflitos.

Isso é possível porque a força do amor vence todo e qualquer limitação humana, como o fechamento, a vergonha, a vingança, o orgulho, a prepotência, a indiferença etc. O Amor vence o medo e tudo restaura! Por isso, São João retoma o mandamento do Amor, tão pedido por Jesus: “Amados, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus. E todo aquele que ama, nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1Jo 4,7-8). “Amados, se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros. Ninguém jamais viu Deus. Se nos amamos uns aos outros, Deus está conosco, e o seu amor se realiza completamente entre nós” (1Jo 4,11-12). “No amor não existe medo; pelo contrário, o amor perfeito lança fora o medo, porque o medo supõe castigo. Por conseguinte, quem sente medo ainda não está realizado no amor” (1Jo 4,17-18). “Quem ama a Deus, ame também o seu irmão” (1Jo 4,21), ou seja, os seus filhos, seus pais, seus irmãos, seus amigos, conhecidos e inimigos! Podemos fazer tudo, mas só a experiência do amor universal, plenifica o nosso coração e a totalidade da família! Uma tarefa cotidiana: jamais deixar-se vencer pelo desamor! O bom vinho que foi conservado até o final, é a fidelidade alegre e a perseverança no amor que mantém a alegria na convivência familiar.

+ Dom Antônio de Assis Ribeiro, SDB

Bispo Diocesano de Macapá