Meditação para o Sábado Santo
MACAPÁ (AP) – Por Dom Antônio de Assis Ribeiro, SDB | Bispo de Macapá
O que aconteceu com Jesus Cristo após a sua morte na Cruz até a sua ressurreição? Onde esteve sua alma no dia do sábado após ser crucificado? Essa é uma profunda questão teológica que faz parte das reflexões sobre a pessoa de Jesus Cristo (Cristologia). Eis um mistério da nossa fé cristã. No Credo nós professamos que Jesus “foi crucificado, morto e sepultado; DESCEU À MANSÃO DOS MORTOS; ressuscitou ao terceiro dia…”. A realidade da experiência da morte levou Jesus de Nazaré a “descer ao reino dos mortos!”
1. FUNDAMENTOS BÍBLICOS:
Para a mentalidade religiosa judaica havia sim, o reino dos mortos, era o sheol (ou hades, ou infernos), era lugar dos mortos. O Sheol era a morada dos daqueles que partiram desta vida, os falecidos; eles imaginavam um ambiente sem luz, de escuridão, de solidão, de pesar, de tristeza, de vida comunitária; ficavam impossibilitados do louvor a Deus: “só os vivos é podem nos louvar” (Isaías 38,19).
Todo ser humano, por sua finitude, morrendo, descia à região dos mortos à espera da libertação (cf. Prov. 7,27; 9,18; Br 3,11; Lm 3,54; Ez 31,15; 32,21; Is 38,18; Jn 2,7; Jó 18,14).
A saída do reino da morte só é possível mediante uma extraordinária ação da bondade divina (cf. Dn 3,88). “Ele faz descer à mansão dos mortos e subir da grande perdição” (Tobias 13,2).
A DIMENSÃO DO PODER SALVADOR DO FILHO DE DEUS
“Pela graça de Deus, Ele provou a morte em favor de todos os homens” (Hb 2,9). A redenção é para “todos os homens”, vivos e mortos, e em qualquer situação! “Jesus conheceu a morte como todos os seres humanos e, com sua alma, esteve com eles na morada dos mortos. Mas para lá não foi como mais um humano, mas como Salvador, proclamando a boa notícia aos espíritos que ali estavam aprisionados” (Catecismos da Igreja Católica (CIC), N. 632).
“Jesus não desceu aos infernos (a morada dos mortos) para ali libertar os condenados nem para destruir o Inferno da condenação, mas para libertar os justos que o haviam precedido” (CIC, N. 633). “A Boa Nova foi igualmente anunciada aos mortos…” (1Pd 4,6). Entendamos que a condição de “morto” (defunto) significa aquele que já passou para outra dimensão, fora do mundo material.
A descida aos Infernos é o cumprimento, até sua plenitude, do anúncio evangélico da Salvação. É a fase última da missão messiânica de Jesus, fase condensada no tempo, mas imensamente vasta em sua significação real de extensão da obra redentora a todos os homens, de todos os tempos e de todos os lugares, pois todos os que são salvos se tornam participantes da Redenção (cf. CIC, N. 634).
A HUMANIDADE MORRE, MAS A DIVINDADE É IMORTAL
Diz a I Carta de São Pedro: “Ele (Jesus) sofreu a morte em seu corpo, mas recebeu vida pelo Espírito. Foi então que ele proclamou a vitória, inclusive para os espíritos aprisionados” (1Pdr 3,18-19). Pedro se refere às almas daqueles que viveram antes de Jesus. Mas de quem eram essas almas?
A própria Sagrada Escritura responde! Eram as multidões de pessoas que existiram antes da vinda do Messias, o Salvador; que não o conheceram, não ouviram sua voz, não meditaram sobre suas promessas, não testemunharam seus milagres, não foram advertidos por suas Palavras…
Muitos foram animados pela fé (cf. Hb 11), viveram piedosamente, foram virtuosos, bons, justos, sábios; foram alimentados pela esperança da vinda do Messias; foram amigos de Deus, homens e mulheres honestos que ansiavam por ver o Libertador. Recordemos as palavras do velho Simeão que, quando vê e abraça o menino Jesus no tempo, emocionado diz: “Agora, Senhor, segundo a tua promessa, pode deixar teu servo partir em paz, porque meus olhos viram a tua Salvação (Jesus!), que preparaste diante de todos os povos: luz para iluminar as nações…” (Lc 2,29).
A MISERICÓRDIA DE DEUS SE FAZ JUSTIÇA
Dentre esses homens e mulheres de fé que viveram antes de Jesus, há muitos elogiados na Sagrada Escritura (cf Eclo. 44-49), recordemos Noé, Abraão, Sara, Ana, Isaac, Jacó, José, Moisés, Davi, os profetas etc.
Quem morreu em paz por ter sido bom e feito o bem, temente a Deus, adormeceu no reino dos mortos. Assim diz o Eclesiástico: “Penetrarei em todas as partes interiores da terra, e verei todos os que aí dormem, e iluminarei todos os que esperam no Senhor” (Eclo 24,45).
O poder da Misericórdia de divina, por ser plena justiça, chega também a eles. Dessa forma ninguém ficou excluído do conhecimento do Filho de Deus. O Salvador da humanidade anuncia também a misericórdia do Pai àqueles que o precederam na vida terrena e na morte física.
O Filho de Deus encarnado é o senhor das criaturas em todas as suas situações. Portanto, nada e ninguém, fica de fora do domínio de Cristo; tudo e todos, são atingidos pelo Sacrifício Redentor do Filho de Deus.
A Missão Salvadora de Jesus não está limitada pelo tempo presente e nem pelo espaço sociocultural, mas abraça o passado, o presente e o futuro, o tempo e a eternidade.
Eis seu grande poder: “para que, ao nome de Jesus, se dobre todo joelho no céu, na terra e sob a terra; e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai” (Fl 2,9-11). Ele é o príncipe da vida e senhor dos vivos e dos mortos.
5. ORAR PELOS FIÉIS DEFUNTOS
Neste dia, sábado santo, rezemos pelos nossos falecidos, fieis defuntos que estão no purgatório. “É santo e salutar o pensamento de orar pelos defuntos para que sejam livres dos pecados” (2Mac 12,46).
Que o Deus da paz, que ressuscitou dos mortos a Jesus nosso Senhor (Hb 13,20), Ele que é o “Vivente”, que esteve morto, mas vive para sempre, que tem as chaves da morte e da morada dos mortos” (Ap 1,18), nos conceda a graça do Bem-viver na esperança da Salvação Eterna. A nossa plena glória! Amém!



