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05.11.2017


Festa de São Tiago



Uma das festas mais interessantes do folclore amapaense é, sem dúvida, a festividade de São Tiago, que se realiza todos os anos, de 24 a 25 de julho, na histórica e pitoresca Vila de Mazagão Velho, no município de Mazagão.

Esta festa foi inicialmente celebrada em julho de 1772, isto é, há duzentos e cinco anos atrás, e é uma autêntica festa mourisca - como muitas que se celebravam no Século XVIII. na Bahia, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, com a participação de solenes cavalhadas e a evocação simbólica das velhas lutas entre cristãos e mouros, e que nos Séculos XVI, XVII e XVIII foram igualmente representadas nas velhas praças de Mazagão da África, antiga possessão portuguesa no Marrocos cuja população foi em grande parte emigrada (1771) para essa vila do interior amapaense.

Sem embargo do conhecido apego às velhas tradições, por parte dessas populações atuais e Mazagão Velho, o tempo muito as têm alterado e destruído.
O PRESENTE
Às dezesseis horas do dia 24 de julho começam os festejos propriamente ditos, com o "Presente". A cerimônia assim se desenrola: As 16 horas saem às ruas as caixas ou tambores que substituem as cornetas de guerra, para dar aviso às "Figuras", como são chamados os que vão fazer ou brincar de mouros e cristãos e ao povo em geral. São momentos de expectativa.

Meia hora depois, ou seja, às 16:30 hora saem as figuras a cavalo e com vestes próprias: os mouros com abas de seda encarnadas, capacetes encarnados, enfeites brancos e fitas encarnadas, os cavalos selados e com fitas encarnadas à testa; os cristãos com calça, blusa e quepe brancos e os cavalos igualmente enfeitados com fitas encarnadas à testa. Vão à casa das autoridades civis e militares ou religiosas, presentes à vila, fazer entrega do "Presente" um pouco de carne de porco fresca com algumas laranjas, em cus tosas bandejas de prata, cobertas com papel de seda encarnado. É, então, servida alguma bebida alcoólica: vinho, cerveja, aguardente, pelo dono da casa que faz entrega da retribuição, consistente em pólvora e espoleta, para a festa do santo.

 

Em seguida, dançam as figuras o "Vamonez": feito em grande círculo, vão todos saltitando ao toque dos tambores e de instante a instante, batendo todos o pé fortemente, para marcar o compasso enquanto cantam: hê, hêê, hêê, hêê. A coreografia é de origem aparentemente afra; há porém, a hipótese, aventada por Nunes Pereira, de ter sido copiada do folclore crioulo da Guiana "Cassicó".
À noite do dia 24 tem lugar o Baile de Máscaras, que é realizado em um barracão de palha preparado e enfeitado artisticamente de bandeirinhas de variados formatos. Dança-se em traje carnavalesco com máscara e fantasia. E a festa do "regozijo" dos mouros pelo histórico "Presente" envenenado. A máscara era empregada para amedrontar os cavalos dós cristãos.
O CÍRIO
No dia 25, às 9 horas, realiza-se o Círio, que é uma solene procissão, com a participação das autoridades religiosas . É um grande préstito que se desloca por todas as ruas da Vila.
A frente das imagens de São Josué, que o povo convencionou em chamá-lo de São Jorge e São Tiago e que são evadas em seus andores, vem o padre; atrás, as figuras que representam os mesmos santos: São Tiago, de culotes brancos, blusa encarnado escuro; capacete encarnado enfeitado de plumas brancas, de perneiras pretas, com sua espada de prata na longa bainha; São Jorge, de perneiras marrons, calças e blusas de seda amarela, com capacete amarelo, enfeitado de plumas brancas e fitas encarnadas e com seu belo estandarte cruzado.

São Jorge e São Tiago, ao acompanharem as imagens que representam, mantém sempre boa distância dos andores, os romeiros pedestres que os acompanham, realizando contínuas e elegantes evoluções.
Uma figura interessante, que se destaca nesse préstito tradicional é do "Menino da Caldeirinha, que representa o rei dos mouros. Vem a cavalo e sua sela é colocada sobre belíssima toalha bordada. Sua túnica é de seda amarela, o capacete encarnado e enfeitado com flores encarnadas e brancas e com plumas brancas. Sua longa espada é de prata Trabalhada. O "Menino da Caldeirinha" era assim chamados pelos mouros pelo fato de costumar usar em campanha no punho do braço esquerdo, artística caldeirinha onde guardava frutas e pequenas guloseimas.

 

Ao meio dia 25 é visto a cavalo e em desabalada carreira, o "Bobo Velho", de máscara. Representa um espião mouro. Veste-se de pano de estopa e traz uma máscara protegida com metal. O povo todo lhe vai jogando bagaços de laranja e limões, com um turbilhão de chacotas da garotada alegre.
AS BATALHAS
Às 15 horas tem início as batalhas entre os mouros e cristãos. Já o povo está todo concentrado no adro da igreja.

Na primeira destas justas tradicionais é evocada a interessante lenda do Atalaia, o herói mazaganense que no cerco de 1769, levado a efeito pelo sultão de Marrocos, deu a vida pela pátria.

 

Narra a tradição que em meio aos mais ilustres lutadores da antiga praça de Mazagão da África, destacava-se esse jovem cuja coragem e destreza eram inexcediveis. Certo dia porém foi aprisionado e os mouros o decapitaram. Antes de morrer, contudo, conseguiu lançar por cima dos muros do Castelo de Vila uma bandeira moura, da qual se havia gloriosamente apoderado, pronunciando a frase, que é ainda hoje repetida piedosamente, em Mazagão Velho: "Morra o homem e deixe a flâmula".

E os mazaganenses exibiam do alto de suas muralhas esse troféu de luta. Os mouros, por sua vez, erguiam na ponta de uma grande lança a cabeça do herói.

 

Nas outras batalhas são evocados outros episódios não menos interessantes, entre cristãos e a gente de Mafoma.

Há, por exemplo, as batalhas conhecidas como: "Da Venda dos Moleques", "Da Repartição do Lucro Dessas Vendas", "A Tomação do Estandarte" além de outras.

 

O "Vamonez" é o final dançado e cantado em grande estilo, com a participação de todas as figuras e do povo em geral.

Nesta dança havia o jogo da capoeira que, da mesma forma ocorrida no Marabaixo e batuque do Curiaú, foi proibida pelos padres. Mas quando não há nenhuma autoridade presente ainda fazem demonstrações de capoeira, mantendo a simplicidade e a originalidade africanas.

 

O MILAGRE DE SÃO TIAGO
Diz a lenda que por ocasião da morte do Atalaia, verificou-se o grande milagre de São Tiago, na Praça de Mazagão da África: a espada pendente da velha imagem do Santo no altar da igreja da praça, apresentou-se manchada de sangue. Este fato veio coincidir com outro não menos interessante e curioso: do lado dos cristãos surgia sempre um vulto desconhecido, que em todos os combates e qual o outro Atalaia, lutava com coragem e heroísmo excepcionais. E muitos viram logo naquele o São Tiago do altar da velha igreja, o mesmo jovem incógnito e misterioso que lutava ao lado dos cruzados mazaganeses. É bom observar que o São Tiago que se encontra em Mazagão Velho é o mesmo do milagre de Mazagão da África.

A agiografia hodierna se ocupa de muitos Tiagos canonizados pela Igreja Católica. Conhecemos, por exemplo: Tiago, o mutilado natural da Pérsia e cuja festa a Igreja Romana comemora no dia 27 de novembro: Tiago Menor, filho de Alfeu e insigne autor da primeira das epístolas do Novo Testamento; Tiago Maior, natural da Galiléia e também apóstolo como o último, e cujo corpo foi levado à Espanha "post-mortem". Não há dúvida porém que o Tiago venerado em Mazagão Velho é este último, São Tiago Maior, de cuja proteção se orgulha a Espanha e também Portugal.
CONCLUSÃO
"Mazagão da África" foi um dos baluartes das glórias portuguesas em cujas muralhas se inscreveram com sangue fervente inúmeros nomes de ilustres lidadores, não só no primeiro e memorável cerco de Gavy de Mendonça oferece singela e emocionante como na última tentativa em que os mouros só encontravam ruínas fumegantes, atestando o valor, os sacrifícios e a cega obediência dos heróis lusitanos aos comandados do seu Rei.

 

Cento e cincoenta mil mouros investiram sobre a Praça de Mazagão, durante 65 dias. Tinham sob seu comando um general de 20 anos, Mulei Mohamed. Até mulheres com crianças ao colo ajudaram as poucas centenas de soldados portugueses a impelir as investidas ferozes do inimigo.

Do alto das muralhas, a visão hedionda da batalha, a retirada dos sitiantes com um saldo de 25 mil o número de cadáveres deixados em torno da cidade.

 

As perdas portuguesas não passaram de 117 mortos e 270 feridos, segundo relatório do capitão interino de Mazagão, Rui de Souza Carvalho.

Durante mais de dois meses, Mazagão, viveu num verdadeiro inferno de fogo e sangue, cercado por todos os lados pelas tropas mouras que tentavam vencer as muralhas usando então moderníssimas armas de bombardeio.

 

Sob o comando do general Álvaro de Carvalho, os soldados, auxiliados pelas mulheres, crianças e velhos, além de guerrear, faziam as vezes de pedreiros e britadores, deslocando pedras e massa para as rachaduras produzidas nas muralhas.

Os mouros tentaram entrar na cidade por meio de subterrâneos. Os que conseguiram, mal a terra se deslocava, se viam cobertos por um banho infernal de breu derretido.
O jovem general derrotado era o filho primogênito do Xerife que, com exceção de três cidades (Tanger, Ceuta e Mazagão) dominava todo o Marrocos.

 

A notícia da Odisséia Mazaganense chegou a Lisboa em julho de 1562, onde, até tradicionais irreconciliáveis inimigos se abraçavam chorando nas ruas, numa grandiosa festa, ao som dos sinos de todas às igrejas e o povo dando vaza à sua alegria pela magnífica vitória.

Em Trento, os membros do Concílio que ali se realizava festejaram como uma espetacular vitória da própria cristandade a epopéia dos portugueses de Mazagão.

 

Com esse relato da história de Mazagão da África é fácil entender a importância da festa de São Tiago em Mazagão Velho, realizada pelos descendentes dos heróis daquela epopéia Africana. Por isto num, conceito de preservação da importante demonstração do folclore amapaense é que se deve dar todo o apoio possível a ela, para que permaneça não apenas como um atrativo turístico, que o é, mas também como um patrimônio de tal relevância que poucos Estados do Brasil possuem semelhante.


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