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Curia√ļ Folclore



CURIAÚ, A RESISTÊNCIA DE UM POVO (FOLCLORE)

 

ANGELO PIRES DA COSTA

Da Equipe de Articulistas

Em 22 de agosto de l846 o inglês Willian Thomas criou a palavra Folklore, que significa "pensamento popular", "saber vulgar", publicada na revista '~~he Atheneum". O folclore de uma forma geral tem muito a ver com a história, literatura, música, arqueologia, antropologia, antiquariologia, lingúistica, sociol~ gia, etnografia, psicologia, mitologia, filosofia, etc; o folclore abrange uma grande imensidade de fatos, de maneiras de pensar, de sentimentos de povos e nações. Costumam alguns estudiosos agrupar o folclore nas seguintes categorias: linguagem popular, literatura oral, danças e músicas folclóricas, folguedos folclóricos, cultos populares, arte e artesanato folclórico, culinaria, crenças e superstições, usos e costumes, lúdica e etc.

O folclore amapaense nasceu movido pelo sentimento de identidade e tradição do indio e principalmente do negro.

 

Em nosso folclore, destacam-se as lendas, o boto, da Pedra do Guindaste, do manganês. Na alimentação, comidas tipicas como: a maniçoba, o vatapá, o tamuatá, o pato no tucupi, o caruru, a caldeirada de tucunaré e da gurijuba, a farofa de pirarucu, etc. Dentre as bebidas podemos citar: a bacaba, o açai, o tacacá, o suco de cupuaçu, do maracujá, da graviola, do taperebá, do mucajá, do tucuma, etc.

Durante o periodo de quadra junina, temos os cordões mais célebres, que são: o do papagaio, do bem-te-vi, o guará, a ema, do boi, etc. Há também. p bumba-meu-bol (quadrilhasjuninas).
Em nosso vocabulário nasceram expressões como "Maria vai-com-as-outras 'cupuaçu só cheira embaixo do pé da árvore", 'fazer uma boquinha", "na primeira de copas", etc.

 

Já no artesanato destacam-se a cerâmica-decorativa revestida com manganês, as louças utilitarias feitas com argila do distrito de Maruanum, as cesteiras, os móveis de fibras vegetais e em madeira de lei regional, portas e réplicas de armamentos indigenas e confeccionadas também em madeiras regionais.
Dentre as festas religiosas, podemos citar: São José, do Divino Espinto Santo, da Santissima Trindade, de São Tiago, Nossa Senhora da Piedade, de São Benedito, de São J~ aquim, etc.

Quanto ás danças amapaenses temos: marabaixo, batuque ,dança do vomonê e sahiré.
O folclore sobrevive ao tempo, mesmo com as mudanças de hábitos e costumes populares, exatamente pela facilidade de transmissão através da linguagem oral e outras formas de relação entre as gerações, assim pois faz parte de nosso cotidiano. Se torna necessário uma grande consciencia ao processo permanente de realimentação do folclore, sob pena de cedermos espaço para a cultura de massa tão propagada nos meios de comunicação.
FOLCLORE NO CURIAÚ
Com um olhar manso, mas extremamente desconfiado, os moradores da região do Curiaú travam uma incansável luta para preservar abeleza natural do distrito, além de manter viva a tradição do grande legado cultural dos antigos escravos trazidos no século XVIII para construção da Fortaleza de São José de Macapá, que formaram o antigo quilombo e as demais comunidades existentes na área.

 

O distrito do Curiaú possui dois núcleos populacionais com as seguintes denominações: Curiaú de Dentro e Curiaú de Fora. O Curiaú de Dentro, distante cerca de um quil~ metro do Curiaú de Fora, caracteriza-se pela beleza natural de um grande lago. Com muito verde na suapaisagem, que contrasta com o gado bubalino e com a exuberante plumagem das aves que transformam o lago em seu habitat. Na época do inverno o lago transborda e no verão ele seca, formando um grande pasto nativo e igarapé de água corrente, que servem a uma grande quantidade de banhistas nos feriados e finais de semana. No Curiaú de Fora vislumbra-se uma vasta vegetação tipica ao cerraao, que rorruam inumeras ilhas de mato em forma circular.

Na Vila do Curiaú, apesar de construções relativamente modernas, ainda se pode ver com raridade algumas casas originais, cobertas de palha de palmeiras de buriçú ou ubuçu, e paredes de buriti. A forma de vida de seus moradores não é uma sociedade primitiva como muitos imaginam, mas um lugar politicamente organizado, onde os moradores são profundamente devotos de vários santos católicos e que por tradição são festejados com muita fé e devoção.

 

No Curiaú de Fora, no mês de maio, é festejada Santa Maria (quando é dançado o marabaixo), em dezembro festeja-se São Tomé e no mês de agosto a grande festa do padroeiro dos dois núcleos: Joaquim".

Em todos os festejos, exceto o de Santa Maria, após a ladainha dança-se o batuque, que é a grande expressão da origem africana dos habitantes e é úma das manifestações de dança mais expressivas encontrada no Estado. Seu ritmo estonteante é realizado por tambores seculares chamados de "macacos" (porque são confeccionados de troncos de macacaueiro e de couros de animais) espalham-se pelo salão de festa. Antes porém os festeiros acendem uma grande fogueira que fica permanentemente acesa, e serve para esquentar o couro dos instrumentos. São dois os "macacos", um de repinicar e outro de marcar o ritmo, denominado de amansador. Cada um deles tem a forma cônica e mede cerca de um metro de cumprimento. Existem também três pandeiros confeccionado há muitos anos com a madeira do cacaueiro e do couro de carneiro ou de sucuriju, que fazem parte do ritmo quente do batuque.

 

Somente nos festejos iniciados no dia 9 de agosto, alusivos a São Joaquim, é que ocorre a folia e a ladainha. Neste dia, á noite, iniciam-se as festividades, com os rezadores e músicos, convocando os devotos, que vestidos todos de branco se dirigem até a igreja para rezar a ladainha.

Oh, devoto vamos rezar
A ladainha do Senhor eis)
Ai, vamos nós todos adorar
O sagrado resplendor eis)
Um rosário de Maria
Quem rezar com devoção
Não morre sem sacramento
Nem também sem confissão
Assim disse Jesus Cristo
Quando encontrou Adão.

 

Encerrada a missa solene e a ladainha, tem inicio a 'Tolia de São Joaquim", onde um mestre-sala, por quinze minutos, faz a convocação, acompanhado por instrumentos pr~ prios do ritual. A campa (pequeno sino) é troca pelo mestre-sala quando situado entre dois porta-bandeiras, fazendo com este instrumento a marcação do ritmo. O tambor comprido e leve, feito de madeira e pele de sucuriju, também entoa a marcação da folia. Dois pandeiros, confeccionados em madeira de cacau e pele de carneiro ou bode, duas tabocas fechadas nas extremidades com se-mentes dentro, para exercer a função de xeque-cheque, quatro recc-recos, que também são feitos de taboca, onde o tocador passa uma vareta sobre os gomos escavados nela, para provocar o som. E finalmente duas violas de cinco cordas fazem o acompanhamento das melodias.

Todos os dias, é rezada a ladainha em latim pelo mestre-sala e seu ajudante, sendo respondido em coro pelos fiéis. Após a ladainha recomeça a folia sob o comando do mestre-sala, que usa uma toalha durante todo o ritual. Se achar que um dos devotos não cumpriu corretamente suas obrigações religiosas, no outro dia durante a folia ele deverá "pagar prenda", que consiste em ter que rezar orações ajoelhado em frente ao altar, encoberto com a bandeira do santo.

 

Após a folia começa o 'batuque". Os batuqueiros tocam os tambores sentados sobres os mesmos, que ficam superpostos num tarugo de acapu. Os cantadores (solistas) e os tocadores de pandeiro ficam juntos no centro do salão, enquanto os dançadores em ligeiras evoluções sobre si mesmos e ao redor dos batuqueiros, sempre no sentido inverso do relógio.

Eh, eh, São Joaquim,
Eh, eh! São Joaquim
Na hora da morte
Reza por mim.
Na dança sob o som do batuque entram homens, mulheres e crianças de todas as idades. Quando o ritmo se acelera, transforma-se em um espetáculo sem igual. As saias roda-das e coloridas tomam conta da sala durante as evoluções. Os gritos e os gingados com a queda do corpo também cobrem o visual da dança. E permitido aos que assistem o batuque participar da festa, pois os cantadores convidam, assim:

 

"Inda não dançou
Inda não dançou
Essa moça bonita
Inda não dançou"

Uma das caracteristicas da festa de São Joaquim é a existência do "mastro" que acontece há mais de um século. E feito de árvore de jacaraúba e todo ano é repintado e levantado. Sua pintura é feita de cor branco com listras em aspirais em azul. O levantamento é feito no dia 9 de agosto e até o término da festa éhasteada a bandeira branca onde esta bordada a coroa do santo.

 

A grande festa de São Joaquim possui caracteristicas religiosas e profanas. As ladainhas, a procissão e a folia retratam com profundidade a devoção e a fé que este povo amigo e trabalhador do Curiaú tem com seus santos. Por outro lado o "batuque" demonstra intensamente as raizes africanas estabelecidas aqui durante o Brasil Colônia, onde o canto negro revolve o espirito de luta e o desejo imenso de liberdade. Há tambem os famosos bailes, que antes eram tocados com instrumentos de pau e corda, mas que hoje foram substituidos por som mecânico e até conjuntos musicais.

São mais de dois séculos de tradição e a manutenção destas festas é necessária para mantermos viva a chama da nossa história.

 

Porque não preservar as coisas que nós eruditos e urbanos chamamos de folcloe?
(de Jornal dos Municípios Ano IV - nº 13-0149 Macapá-AP, 07 de maio de 1999)


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